MAÇONARIA: Berço da Tolerância! Será mesmo?

Eis uma palavra que ouvimos com muita frequência desde nossos primeiros passos pela Coluna do Norte: Tolerância. Mas até que ponto esta virtude é efetivamente praticada?
Ou melhor: até que ponto os que supostamente a defendem têm real ciência do que é ser tolerante?
Temos presenciado tristes episódios entre nossas Colunas. Irmãos chamando outros por adjetivos inomináveis. Classificando-os e rotulando-os por suas visões de mundo, convicções políticas ou religiosas sem se dar ao trabalho de dialogar, de conhecer a perspectiva do Irmão. Condenações sumárias no tribunal do achismo e do preconceito.
É muito triste testemunharmos laços supostamente fraternais se partirem por divergências de opinião. Sim, supostamente, pois verdadeiros vínculos fraternos são inquebrantáveis e estas rupturas somente expõem a falsidade ou fragilidade daquelas relações e seu substrato nauseabundo de intolerância reprimida, apenas esperando o momento de mostrar as garras, de dar o bote.
A Constituição da Grande Loja Maçônica do Estado de São Paulo, em seu preâmbulo, preconiza:
II - a Maçonaria não impõe limites à investigação da verdade e, para garantir essa liberdade, exige de todos a maior tolerância;
e, entre seus princípios, encontramos o que se segue:
VII - exigir tolerância para com toda forma de manifestação de consciência, de religião ou de filosofia, cujos objetivos sejam os de conquistar a verdade, a moral, a paz e o bem estar social;
E talvez aqui, neste dispositivo, resida uma fresta, por onde o caldo nefasto da intolerância pode escorrer.
Os que não têm a tolerância em seu estado da arte ou que não trabalham para atingi-lo, não raras vezes, argumentam que estes objetivos são relativos, considerando-se cada manifestação de consciência, cada religião ou cada filosofia.
E elegem, de acordo com suas próprias convicções e vieses, aqueles que lhes parecem buscar a verdade, a moral, a paz e o bem-estar social. Mas esquecem de um detalhe muito importante: o benefício da dúvida. Sim! Enquanto Irmandade precisamos, ou melhor, devemos ter nosso Irmão como portador de boa vontade!
Por mais que não compreendamos aquela visão de mundo, é mister olharmos nosso Irmão como um obreiro do bem e, no mínimo, como uma pessoa digna e bem-intencionada.
Nossos laços fraternais, meus queridos Irmãos, são algo sublime, precioso, basilar para nossa Ordem. Não podem ser maculados por nossos vícios, nossos preconceitos, nossa afobada vontade de julgar e rotular.
Sem nossos Irmãos não somos nada, mas juntos somos mais fortes! Juntos somos verdadeiros Construtores Sociais. E, nesta grande obra, não podemos desprezar nenhuma Pedra por mero julgamento precipitado.
O grande Voltaire, nosso Irmão, em seu Tratado Sobre a Tolerância, nos diz: "A natureza diz a todos os homens: Fiz todos vós nascerem fracos e ignorantes, para vegetarem alguns minutos na terra e adubarem-na com vossos cadáveres. Já que sois fracos, auxiliai-vos; já que sois ignorantes, instruí-vos e tolerai-vos. Ainda que fôsseis todos da mesma opinião, o que certamente jamais acontecerá, ainda que só houvesse um único homem com opinião contrária, deveríeis perdoá-lo, pois sou eu que o faço pensar como ele pensa. Eu vos dei braços para cultivar a terra e um pequeno lume de razão para vos guiar; pus em vossos corações um germe de compaixão para que uns ajudem os outros a suportar a vida. Não sufoqueis esse germe, não o corrompais, compreendei que ele é divino e não troqueis a voz da natureza pelos miseráveis furores da escola." (grifo nosso) A Declaração de Princípios sobre a Tolerância, aprovada pela Conferência Geral da UNESCO em sua 28ª reunião, realizada em Paris, em 16 de novembro de 1995, define tolerância como respeito, aceitação e apreço da diversidade, e a classifica como "atitude ativa" de reconhecimento dos direitos humanos universais — não uma simples indulgência passiva. (grifo nosso)
Podemos dizer que, sob uma perspectiva filosófica, a tolerância é a aceitação respeitosa de crenças, opiniões e modos de vida diferentes dos nossos, ainda que os julguemos equivocados.
Isto posto, meus Irmãos, meditemos sobre toda boa oportunidade colocada em nosso caminho para crescermos como seres humanos.
Que possamos estar atentos, vigilantes e diligentes na construção e fortalecimento de laços fraternos.
A tolerância precisa sair de nossos templos, deixar as páginas de nossos Rituais e ganhar mundo! Precisa estar presente em nossa rotina diária. Precisa temperar nossa relação com as pessoas, máxime com nossos Irmãos!
A alcunha de "Eternos Aprendizes" é muito bonita, muito romântica, mas precisamos submeter esta expressão aos alegóricos limites de sua significação e não a tomarmos ao pé da letra. A busca da Excelência é uma necessidade.
Por outro lado, não podemos deixar o título de "Mestres" nublar nossa autoimagem. Ser Mestre é um estado tão idílico quanto utópico, mas precisamos continuar a tomar este estado como norte em nossas vidas. Desenvolvendo a fundamental e necessária humildade de conhecermos nossos limites.
Por mais curioso e paradoxal que seja, é este conhecimento de nossa ignorância que nos aproxima da sabedoria.
Quem julga sem conhecer e condena sem compreender afasta-se cada vez mais do Mestrado Maçônico e, aí sim, permanece um eterno Aprendiz, na concepção mais pobre e infeliz desta expressão.
Um Cordial Aperto de Mão e um Tríplice Fraternal Abraço a todos os Irmãos do planeta!
REFERÊNCIAS
Constituição da Grande Loja Maçônica do Estado de São Paulo. São Paulo: Grande Loja Maçônica do Estado de São Paulo, 2011. Preâmbulo, item II; Princípios, item VII.
UNESCO. Declaração de Princípios sobre a Tolerância. Aprovada pela Conferência Geral da UNESCO em sua 28ª reunião, Paris, 16 de novembro de 1995. Disponível em: https://www.oas.org/dil/port/1995%20Declara%C3%A7%C3%A3o%20de%20Princ%C3%ADpios%20sobre%20a%20Toler%C3%A2ncia%20da%20UNESCO.pdf. Acesso em: [data].
VOLTAIRE. Tratado sobre a tolerância. [Tradução de William Lagos]. Porto Alegre: L&PM, [ano da edição]. (Coleção L&PM Pocket). (Original francês publicado em 1763).





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