Sobre as Lojas Temáticas
- Mario Vasconcelos

- 26 de abr.
- 4 min de leitura

Há alguns dias um Irmão me enviou uma postagem sobre uma Loja na California que teria como tema o seriado de ficção científica Star Trek e perguntou minha opinião.
Isso despertou a curiosidade de explorar um pouco mais o tema e qual não foi minha surpresa ao me deparar com esta prática amplamente difundida no Reino Unido, qual seja, a prática de Lojas Temáticas ou, em inglês, Especial Interest Lodges.
Há mais de quatrocentas (sim! foi isso que escrevi) Lojas temáticas ativas e sob a jurisdição da Grande Loja Unida da Inglaterra. Os temas são os mais diversos. Cito alguns: Cultura Africana, Forças Armadas, Aviação, Jogos de Tabuleiro, Passeios de Barco, Fogueira, Cultura Brasileira, Brevidade, Serviços de Construção, Camping, Instituições de Caridade, Charutos, Carros Clássicos, Comunicações, Construção, Atividades Rurais, Esportes Rurais, Cerveja Artesanal, Cricket, Ciclismo, Dança, Serviços de Emergência, Engenharia, Esoterismo, Agricultura, Jantares Requintados, Artes Marciais e muitas outras especialidades. (Clique aqui e confira todas as lojas temáticas da GLUI).
Sobre esta prática, como tudo neste mundo polarizado, há quem defenda e há quem a condene também. Isso é natural dentro dos limites da fraternidade e da dialética edificante. Pensarmos sobre nossas práticas concorre para o aperfeiçoamento dessas e de nós mesmos.
Em um artigo publicado no site “The Millennial Freemason”, o Irmão Jack P. Roberts defende que a disseminação de Lojas Temáticas é um sintoma preocupante da falta de sentido na prática maçônica e do desvio de um tema que já é plenamente estabelecido, qual seja: a própria Maçonaria e toda sua rica simbologia.
Segundo ele os Irmãos buscam estes temas aglutinadores por não conseguirem se dedicar com afinco aos objetivos fundamentais de nossa Ordem que são o aperfeiçoamento humano e a busca de uma sociedade mais feliz.
Ponderando sobre a natureza destes temas sou levado a crer que nem são necessariamente boas ou ruins. Tudo vai depender dos frutos finais do trabalho. Por exemplo, em uma visão superficial, qual o efeito social efetivo de uma Loja cujo tema é a realização de jantares refinados ou a degustação de rum ou mesmo a prática da charutaria. Mesmo que estes Irmãos desenvolvam ações filantrópicas (seja por sincera boa vontade ou por um altruísmo pacificador de consciências) estas temáticas nos parecem um pouco distantes da essência humanista da Fraternidade Maçônica.
Mas se, mesmo com estas temáticas, houver uma finalidade genuinamente maçônica sendo atingida, se estes temas, por mais pitorescos que possam parecer, motivarem os Irmãos a estarem juntos e desta união se materializam frutos para a coletividade em que vivem, aí sim os temas ganham uma real utilidade e valor.
Prosseguindo em minhas reflexões sobre o tema imaginei uma Loja cujo tema seria a fiscalização dos gastos públicos municipais em seu município, um trabalho que vem sendo realizado há cerca de 20 anos em nosso país pelo Observatório Social do Brasil, abraçado por alguns setores da sociedade civil (inclusive Maçonaria) e que tem gerado frutos positivos na prática da cidadania.
Aos Irmãos que desejarem conhecer mais o trabalho dos Observatórios Sociais recomento visitarem o site www.osbrasil.org.br , mas em linhas gerais trata-se de um trabalho voluntário, apartidário, onde cidadãos doam seu tempo para diversas atividades de fiscalização do emprego das verbas públicas municipais.
E as frentes de trabalho são inúmeras: licitações, gestão de contratos administrativos, gestão de patrimônio, uso responsável de viaturas, inspeção da qualidade das merendas escolares contratadas e muitas outras atividades onde uma visão profissional e transparente sobre o bom uso da coisa pública são sementes para o florescimento de qualidade dos serviços prestados à população.
Cito apenas um, um único caso exemplificativo aos Irmãos: em 2013 o Observatório Social de São José dos Campos acompanhou uma licitação da Prefeitura Municipal para instalação de Wi-Fi em 140 pontos nas escolas da cidade e aquisição de tables para os alunos. A licitação teve valor de referência inicial de aproximadamente 28 milhões de reais. Para não entrar em detalhes ou prolongar a narrativa, após atuação do OS e do TCE, o edital foi suspenso, refeito e a contratação fechou no valor de aproximadamente 11 milhões! Isso mesmo, queridos Irmãos, 17 milões de “gordura” gerada por má fé? Incompetência? Não posso afirmar. Seria leviano de minha parte e não vem ao caso.
Agora, voltando à questão das Lojas Temáticas, já imaginaram o poder e o impacto social de uma Loja voltada a esta finalidade? Irmãos advogados, juízes, promotores, contadores, servidores públicos com experiência em licitações ou simplesmente cidadãos com boa vontade integrando o quadro de uma Loja e com um trabalho estruturado de combate à corrupção e foco na utilização ótima das verbas públicas municipais?
Corrupção e incompetência na gestão dos gastos públicos pode ter consequências visíveis ou invisíveis, corriqueiras ou mesmo fatais. Uma verba mal aplicada na saúde pode custar vidas.
Então, tenha ou não um tema específico, boa parte de nossas Oficinas devem ter mesmo é um objetivo, um foco bastante definido de modo a fazer cumprir a meta de Tornar feliz a humanidade.
Ser maçom é bem mais que ter 100% de frequência em Loja (e olhe que isso já é bastante raro de ocorrer). Nossas reuniões semanais ou quinzenais são o amálgama da fraternidade. Se prestam a sabermos como está nosso Irmão, se sua família está bem, se ele está bem ou precisando de algum apoio, para nos alegramos pela presença, praticarmos a ritualística que é muito importante para mantermos coesos os fundamentos simbólicos e tantas outras finalidades. A presença, o abraço, a convivência é absolutamente importante.
Mas a Maçonaria socialmente produtiva começa quando a sessão termina.
Um Tríplice Abraço, meus Irmãos.




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